
Bom dia.
Tem uma frase que eu disse no vídeo que vai sair no canal. Essa carta é sobre ela.
A frase era mais ou menos essa: eu sei construir a imagem dos outros, mas tenho pânico de construir a minha.
Quando eu finalmente disse isso em voz alta, na frente de uma câmera, eu travei por um segundo. Porque era a primeira vez que eu admitia, com clareza, uma coisa que eu vinha vivendo há anos sem conseguir nomear.
Deixa eu te explicar o tamanho dessa contradição.
Eu passei quase dez anos construindo a presença pública da minha irmã. Peguei ela quando era uma menina sem rede no Brasil e ajudei a transformar aquilo numa marca que virou referência. Eu sei, na prática, como se faz alguém ser visto. Qual é a sequência, quais decisões importam, qual é o ritmo de aparecer e o de recolher. Eu fiz isso funcionar de verdade, por muito tempo.
E quando chegou a minha vez de fazer por mim, eu não conseguia nem postar.
Tem uma diferença que ninguém explica entre construir a presença de outra pessoa e construir a sua própria. Quando é do outro, você está protegido. É trabalho, é ofício, é a marca de alguém. Você decide friamente, porque a pele em risco não é a sua. Mas quando é você na frente, sem cliente, sem camada, sem o papel de "o profissional que cuida da imagem de alguém", fica só você. Exposto. E aí trava.
Eu acho que o medo de se expor é mais comum entre criativos do que a gente admite. E é mais cruel justamente em quem entende do assunto.
Porque quem não sabe nada sobre imagem pessoal posta sem pensar. Aparece, erra, aprende, segue. Já quem sabe demais enxerga cada decisão embutida no ato de aparecer — o enquadramento, a palavra escolhida, o que aquilo comunica, como vai ser lido. E enxergar tudo isso, em vez de libertar, paralisa. Você fica tão consciente do que está em jogo que prefere não jogar.
Eu fiquei muito tempo assim. Sabendo exatamente o que eu deveria fazer, e sem fazer.
O que me destravou não foi técnica nova. Foi uma percepção simples, quase decepcionante de tão óbvia: o medo não ia passar antes de eu começar. Eu estava esperando me sentir pronto, confiante, sem medo, pra só então aparecer. E essa ordem está errada. A confiança não vem antes da exposição. Ela vem depois, e só depois, da exposição repetida.
O medo não passa antes. Ele passa fazendo.
Então eu comecei. Com medo ainda no corpo, com a câmera ligada, com a sensação de que eu não estava pronto. Porque eu finalmente entendi que "pronto" era uma condição que nunca ia chegar sozinha.
Se você também sabe fazer pelos outros uma coisa que trava na hora de fazer por você, ou se está esperando se sentir pronto pra começar algo que só vai te deixar pronto depois de começado, eu queria te dizer só isto: a ordem que você está esperando não existe. Não é confiança e depois ação. É ação e depois confiança. O medo é parte do processo, não um sinal de que você não devia.
Eu ainda sinto medo toda vez que publico. Mas agora eu publico mesmo assim. E isso, pra mim, já virou a coisa toda.
Até terça que vem.
Jhonathan