
Bom dia.
Essa semana alguém me pediu pra olhar a precificação dela. Designer, freelancer, cinco anos de carreira, trabalho bom. Cobrava trezentos reais por uma identidade visual completa.
A primeira coisa que me veio à cabeça não foi "essa pessoa cobra pouco". Foi outra: o preço dela estava dizendo alguma coisa sobre a marca dela antes mesmo do cliente abrir o portfólio. E ela não tinha percebido isso ainda.
Eu demorei pra entender o que vou te dizer agora, então não estou falando de um lugar de quem sempre soube. Cobrar é um ato de branding. Não é decisão financeira. É decisão de posicionamento.
Eu aprendi isso na prática, ao longo de quase dez anos cuidando da marca da minha irmã e de outras pessoas que ajudei a posicionar. Em algum momento, com todas elas, chegava a hora de decidir preço. Quanto cobrar por uma publicidade. Que tipo de marca aceitar e qual recusar. E vendo isso de dentro, repetidas vezes, uma coisa ficou clara pra mim: toda decisão de preço é, antes de tudo, uma decisão sobre quem você está dizendo que é.
Quando você cobra trezentos por uma identidade visual, você não está só dizendo "preciso entrar no mercado". Você está dizendo, sem querer, que o seu trabalho vale trezentos. Que a sua experiência vale trezentos. E está atraindo, do outro lado, gente que confirma isso, clientes que enxergam design como gasto, não como investimento. Você acaba construindo uma marca que conversa com quem não vê valor no que você faz.
Cobrar mais não é sobre coragem. É sobre coerência.
Eu sei que é mais fácil dizer do que fazer. Principalmente quando você está em fase de reconstrução, mercado novo, sem rede. Eu vivi exatamente isso quando cheguei na França, fiz trabalho de graça por meses pra entrar na cena local. Então eu não estou te dizendo "cobre caro amanhã" como ordem. Estou te dizendo uma coisa mais simples: comece a tratar o seu preço como parte da sua marca, não como número solto no fim do orçamento.
Tem três perguntas que me ajudaram a fazer essa virada. Eu uso elas com clientes, e usei comigo.
A primeira: com que tipo de cliente você quer estar conversando daqui a um ano? Não daqui a um mês. Um ano. Que cliente você quer que abra um email seu e pense "isso é coisa séria"? Esse cliente não responde a preço baixo. Ele responde a posicionamento. E posicionamento começa em quanto você cobra.
A segunda: o que o seu preço diz sobre a sua confiança em você mesmo? Não é pergunta de autoajuda, é técnica. Quando você cobra muito abaixo do seu nível, você comunica ao mercado que não acredita que está nesse nível. E o mercado tende a acreditar em você na mesma medida em que você acredita.
A terceira, a mais difícil: o que aconteceria se você dobrasse os preços amanhã? Você perderia alguns clientes, quase com certeza. Mas os que ficassem seriam os que enxergam valor no que você faz. E os que fossem embora provavelmente já estavam te segurando num lugar de onde fica cada vez mais difícil sair.
Nada disso resolve a parte prática. Tem mês difícil, conta vencendo, cliente ruim que parece melhor que cliente nenhum. Eu conheço isso de perto. Mas se você está construindo alguma coisa pra durar (e se você cria, você está construindo, querendo ou não) o que você cobra hoje está moldando a marca que você vai ter daqui a três anos.
O design da sua marca não está só nas peças que você entrega. Está também no orçamento que você manda.
Se você está nessa fase de revisar preço, começa por essas três perguntas. Elas mexem com mais coisa do que parece.
Até terça que vem.
Jhonathan
P.S. Se quiser me contar seu momento com preço, responde aqui. Eu leio, e estou juntando essas histórias pra escrever sobre elas de novo, de outro ângulo, mais pra frente.